segunda-feira, 27 de junho de 2011

O sonho acabou (?)


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Estou sentada embaixo de árvores que permitem que os 30ºC de Brasília fiquem um pouco mais amenos. No meu colo, um prato com a maionese de batata com frango deliciosa da minha tia, picanha ao ponto feita pelo meu pai, arroz e farofa. Para beber, suco de caju. De um lado está minha avó de 89 anos contando que banho frio é o segredo da sua saúde. Do outro, meu sobrinho lindo tendo crises do riso mais gostoso com a minha irmã. À minha frente, minha mãe e minhas tias embalam um papo animado (falado em altos tons, como de costume dessa família tão mineira). Um pouco mais afastado, meu pai exerce seu papel de churrasqueiro oficial da família, sempre atento se eu estou precisando de alguma coisa.

O que pode parecer a muitos como uma típica tarde de domingo, para nós que passamos um tempo fora de casa é um sonho realizado. Quantas e quantas pessoas já não repassaram essa cena tantas vezes em suas cabeças, de como seria a sua volta e quais as primeiras coisas que fariam ou que comeriam, e quais as primeiras pessoas que encontrariam?

Estar de volta é um contraste de sentimentos. É uma contradição constante. É se sentir em casa como nunca, mas é não achar seu lugar. Estar rodeada de pessoas e querer estar sozinha. Ficar sozinha e querer ter pessoas ao seu lado. Não consigo sair de frente do computador, penso em 2 moedas, em 2 horários. Ainda não consigo dormir depois das 22h30, não consigo acordar depois das 7h30. Quando são 10h, me bate uma fome de almoço. E mesmo almoçando às 12h, quando são 14h, lá estou eu com fome de novo.

Procuro o interruptor do banheiro do lado de fora o tempo todo, dirijo batendo minha mão esquerda na porta, procurando a marcha. Sinto mais calor que os outros, bebo água o tempo todo (sempre abrindo a torneira primeiro, antes de lembrar do filtro), acho esquisito usar short sem meia-calça e sair sem carregar um casaco. Estou ainda impressionada com o tanto de roupas e sapatos que tenho. Me senti um homem quando vi minha sapateira pela primeira vez, com o pensamento de "eu sou uma mulher ou uma centopéia?". E a facilidade para encontrar sacolas plásticas em casa? Isso sem falar na geladeira cheia e na quantidade absurda de frutas e verduras.

Tenho me sentido muito bem em Brasília, o que, por si só, já é um susto. Mas as saudades de Dublin... Isso é algo que não me sai da cabeça. Assim como não me esquecerei de diversas cenas e momentos que vivi nesses 10 meses, não me esquecerei das últimas músicas dançadas, das lágrimas que teimavam em descer, do riso chorado com o Ulgem e o Eric, da noite mais bunitinha, dos últimos abraços... Não me sairá da cabeça a sensação de vazio que ficou logo em seguida à despedida, o choro engasgado quando o avião pousou no Rio de Janeiro, a sensação de que "o sonho acabou".

O sonho não acabou. Ele só se tornou realidade. Hoje trago no coração pessoas que posso nunca mais ver, mais que ocupam um lugar muito especial na minha vida. Trago as lembranças da chegada, do amor que há muito tempo não sentia tão forte, da paciência inacabável dos meus pais e minha irmã, da evolução não acompanhada do meu sobrinho, da esperança de um novo bebê chegando por aí.

A sensação ainda é de dor. Dor em lembrar, dor em se falar, dor em tentar esquecer. Assim como dói não se sentir completamente em casa, não ter muita vontade de encontrar com as pessoas, não ter coragem de deixar a Irlanda pra trás. Mas nada que o tempo não resolva. Ninguém disse que seria fácil. E não está sendo. Mas, se me pedissem, faria tudo de novo. E de novo. E de novo...

* Fotos by Fernando Mesquita

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Em clima de despedida...

Cada dia que passa acredito mais que bobos são aqueles que não destinam 30 minutinhos dos seus dias para escrever um diário. O ser humano é tão complexo cientificamente, psicologicamente e em todos os -mentes possíveis, que não consigo acreditar que possa existir ao menos um indivíduo cuja vida não gere um diário digno de virar um best-seller mundial.

Mais do que isso, seguimos sempre a máxima de que "a grama do vizinho é mais verde", então sempre esse ano está fazendo mais calor que ano passado, está chovendo mais que ano passado, estou trabalhando mais que nunca, este término foi o pior de todos, os jovens estão mais perdidos que antes... Será que a existência de um diário não seria a prova cabal que essas comparações absurdas são apenas fruto do nosso imaginário, tentando fazer nos sentir mais miseráveis e com mais motivos para reclamar, ao invés de simplesmente vivermos o que nos aparece e tirar o máximo proveito disso?

Eu, particularmente, sempre quis dar início a esse projeto. Assumo que o único motivo que me manteve afastada de sua realização foi a preguiça. Preguiça de sentar para escrever, preguiça de relembrar os fatos, preguiça de reler isso anos depois. Este blog que aqui está foi mais uma tentativa de colocar essa idéia em prática. Claro que, pelo fato de a internet ser um domínio público, muitos dos meus sentimentos e muitas das minhas vivências precisaram ser suprimidos em mensagens subliminares para mim mesma, escondidas em palavras ou fotos que, tenho certeza, mesmo após muitos anos, ainda estarão vivas na minha memória.

Admito que fui muitas vezes relapsa com minha idéia, principalmente no último mês. Mas qual a função de fazer algo para você mesmo, se os seus sentimentos e vontades (ou falta delas) não forem respeitados, não é mesmo?

Fiz o blog, sim, para manter mais estreitos os laços com quem ficou, mas, principalmente, o fiz para nunca esquecer dos 10 meses mais diferentes que eu já vivi. Não direi que foram os mais intensos, os melhores, os que mais cresci. Mesmo que eu concorde com algumas dessas afirmações. Como já disse, estou lutando contra a máxima da "grama do vizinho".

Hoje admito que sinto imensa falta de um diário completo dos dias pré-viagem, ainda no Brasil. Sinto falta de ler minhas palavras expressando o que se passou pela minha cabeça. Sei que alguns posts aqui foram feitos nesse período, mas acho que fui, em certa parte, displicente em relação ao quanto esse recordatório poderia me ajudar agora.

A sensação de estar voltando é a mais esquisita possível! Ao mesmo tempo que não vejo a hora de ir embora, tenho olhos de saudades quando olho para as pessoas queridas que conheci, quando lembro dos momentos inesquecíveis que vivi, quando passo pela cidade que tão bem me acolheu nos últimos 10 meses.

Dublin foi meu lar, minha cidade, meu refúgio. Sempre que viajava, voltava me sentindo bem por estar em casa de novo, porque é assim que me senti aqui: Lar, doce lar.

Essa viagem trouxe para a minha vida franceses, belgas, suíços, eslovacos, irlandeses, poloneses, espanhóis, italianos, húngaros... Mas trouxe também paulistas, cariocas, mineiros, potiguar, gaúchos, recifenses e tantas outras pessoas de estados diferentes que me deram a certeza de que eu amo o povo brasileiro e o Brasil mais que tudo!

Eu aprendi a respeitar e lidar um pouco melhor com as diferenças. Mas, acima de tudo, tenho aprendido (é um looooooongo processo, acreditem) a respeitar as MINHAS diferenças, as MINHAS limitações. Tenho entendido quão pequena mas quão grande eu sou. Tenho entendido porque meus pais sempre me ensinaram a não mentir, a não passar por cima dos outros, a não querer o mal de ninguém. Mais uma vez, esse é um processo longo, mas acho que estou no caminho certo.

Falando em caminho, tenho aprendido que sempre é tempo de recomeçar, de voltar e seguir um novo trajeto. Que desistir às vezes não é sinal de fraqueza. Pelo contrário, pode ser a atitude mais difícil e corajosa que alguém tem que tomar.

Essa viagem me ensinou que posso sobreviver sem meus amigos e minha família. Mas que essa é a última coisa que quero para a minha vida. Que pobres os que não podem contar e confiar nas pessoas. Que eu confio em todo mundo e isso já me machucou muito, e tem potencial pra machucar muito mais, mas eu ainda prefiro acreditar na bondade das pessoas a achar que não vale mais a pena lutar.

Hoje posso falar que dou muito mais valor à minha família. Que eles são a minha vida! E que posso me considerar um pessoa muito feliz por saber que, além deles, tenho AMIGOS de verdade, que nunca me abandonaram. E que nunca o farão. Entendi também que esses são em número bem menor do que eu imaginava, mas que isso não é ruim. Todo mundo precisa de família, amigos e conhecidos. Cada um tem seu papel na nossa vida. E cada papel tem sua importância.

Quero muito chegar em Brasília e abraçar meus pais, sentir o cheirinho do meu sobrinho, rever minha irmã, conversar até de madrugada com meus amigos. Mas queria muito pular os dias até lá, principalmente a quarta-feira. Nunca odiei despedidas. Hoje entendo que nunca soube o que é uma despedida. Tenho passado por mais coisas neste último mês que passei em muito tempo aqui. Espero que um dia eu entenda o sentido de tudo. Mas, querem saber? Se tem algo que eu aprendi, foi que, cedo ou tarde, a gente sempre entende...